jan 9

É arma, sim, mas daquelas que você precisa usar traiçoeiramente. Certo tipo de honestidade, em matéria de truques de sedução feminina, é contraproducente. Você não poderá, por exemplo, perfumar-se diante do ”ser amado”, porque, em vez de estar usando arma, estará apenas demonstrando como se usa…

Há desonestidade nesses cuidados estratégicos? Não, pois perfume é coisa que se enuncia por si mesmo: todos sentem que você se perfumou, e não há como desmenti-lo.

Não se trata, portanto, de esconder a realidade. Trata-se de cercá-la de um esquivo mistério. Perfumar-se diante de um homem seria, por assim dizer, como oferecer-lhe um vidro de perfume. E o que este tem de fazer por você é misturar-se de tal modo a você mesma que sua presença seja imaterial e se torne parte de sua personalidade.

E personalidade também é uma coisa sutil. Personalidade é aquilo que, embora indefinível, faz de você uma presença.

Cerque sua presença de um halo de perfume, e você estará se cercando de seu próprio mistério – você não estará mentindo, estará dizendo a verdade de um modo bonito.

E é por isso mesmo que, se você fizer do perfume mais do que um leve halo, estará apresentando o perfume, e não a si mesma.

*Publicado originalmente no Correio da Manhã, por Ilka Soares, no dia 13 de maio de 1960. Encontrado no Livro ‘Correio Feminino’, de Clarice Lispector.*

dez 26

Disse alguém que a verdadeira elegância não é sequer notada. Não andemos tão longe. Mas é necessário convir que não é pela atenção que se chama que se pode avaliar elegância. De fato, muitas mulheres creem que, quanto mais jóias, mais belas ficarão. Não saber parar de se enfeitar é como não saber parar de comer. Só que, na elegância a indigestão é dos olhos.

Não use roupas que a incomodam. Por mais belas que sejam, ao fim de algum tempo, prejudicarão a graça dos gestos, a naturalidade, dando um ar ”endomingado” a quem as use. Quem pode sorrir espontaneamente quando a cintura está tão apertada que quase tira o fôlego?

De que adianta estar com um vestido bonito, se você ficar puxando a saia ou endireitando a gola ou acertando o cinto ou alisando as pregas, ou, ou, ou etc. Um dos melhores modos de usar bem um vestido é, depois de vesti-lo, esquecer-se dele.

A mulher usa roupas que lhe assentam. Mas deve também adaptar-se às roupas que usa. Por exemplo: que acha de uma jovem em vestido de noite, caminhando com passadas de quem está jogando tênis? Ou que pensa você de uma criatura vestida com a saia e blusa a atravessar uma rua como se arrastasse uma longa cauda de veludo?

*Publicado originalmente no Diário da Noite (Seção Nossa Conversa), por Ilka Soares, no dia 15 de julho de 1960. Encontrado no livro ‘Correio Feminino’, de Clarice Lispector.*

dez 12

Uma ”Mulher esclarecida” não é, como algumas querem fazer crer, e muitos homens sabidos teimam em convencê-las, uma mulher sem escrúpulos e sem preconceitos, pois a viver como parte de uma sociedade, toda criatura tem de seguir as leis dessa sociedade, quer as ache certas ou erradas. Digo-lhes que ”esclarecida” é a mulher que se instrui, que procura acompanhar o ritmo da vida atual, sendo útil dentro do seu campo de ação, fazendo-se respeitar pelo seu valor próprio, que é companheira do homem e não sua escrava, que é mãe e educadora e não boneca mimada a criar outros bonequinhos mimados.

O fato de uma mulher ser livre não implica que ela deva libertar-se também dos liames de moral e pudor, que são, afinal, embelezadores da mulher e, portanto, indispensáveis à sua personalidade.

A mulher esclarecida sabe disso. Ela estuda, ela lê, ela é moderna e interessante sem perder seus atributos de mulher, de esposa e de mãe. Não tem de trazer necessariamente um diploma ou um título, mas conhece alguma coisa mais além do seu tricô, dos seus quitutes e dos seus ”bate-papos” com as vizinhas. Ela cultiva, especialmente, a sua capacidade de ser compreensiva e humana. Tem coração. Despoja-se  do sentimentalismo barato e inútil, e aplica sabiamente a sua bondade e sua ternura. É mulher.

Você, minha leitora, não limite o seu interesse apenas à arte de embelezar-se, de ser elegante, de atrair os olhares masculinos. A futilidade é fraqueza superada pela mulher esclarecida. E você é uma ”mulher esclarecida”, não é mesmo?

*Publicado originalmente no Correio da Manhã, por Ilka Soares, no dia 21 de agosto de 1959. Encontrado no livro ‘Correio Feminino’, de Clarice Lispector.*

nov 28

Somente uma mulher e dona de casa, sabe e reconhece a grande tarefa que é bem dirigir uma casa. A dona de casa tem de ser, antes de tudo, uma economista, uma ”equilibrista” das finanças, principalmente com as dificuldades da vida atual. O Lar é o lugar onde devemos encontrar a nossa paz de espírito num ambiente limpo, sadio e agradável e cabe à mulher providenciar isso. Muitas erram ao fazer de sua casa uma vitrine permanente, onde não há liberdade para o marido fumar o seu cachimbo, para o filhinho brincar. Essas, geralmente, fazem da vida do lar um inferno e quase sempre obrigam o marido a ir procurar conforto e bem-estar noutro lugar, quando não nos braços de outra mulher. Sem permitir que o desleixo e a falta de limpeza tornem a sua casa um lugar impossível de se viver, não caia também no exagero de exigir que seus filhos e seu marido sacrifiquem o próprio conforto para não desarranjar a ”exposição” que é o seu lar. Muitas vezes, um cachimbo esquecido sobre o aparador, um brinquedo largado no tapete, umas almofadas com a marca de uma cabeça que nelas descansou dão o ”calor” necessário ao verdadeiro lar.

A economia é outro problema que a mulher tem de resolver com sabedoria: nem gastar de mais, nem de menos. Sacrifique um bibelô, não troque já as cortinas da sala, mas não deixe faltar bons e fartos cardápios na sua mesa. Não sirva uísque às visitas, mas dê bastante frutas a seus filhos, frutas boas, escolhidas, não as já meio passadas demais, que diversas donas de casa costumam comprar por alguns tostões a menos.

Não entregue a direção das compras e das despesas inteiramente às empregadas, pois essa não é função delas e quem tem de zelar pelo dinheiro de seu marido é você. A boa dona de casa é que sabe dar ordens e acompanha de perto a sua execução. É a que mantém a limpeza,a ordem, o capricho em sua casa, sem fazer desta um eterno local de cerimônias, de deveres, onde tudo é proibido. É a que faz de sua casa o lugar de descanso da felicidade do marido e dos filhos, onde eles se sentem realmente bem, à vontade, e são bem tratados. O melhor lugar do mundo.

*Publicado originalmente no Correio da manhã, por Ilka Soares, no dia 24 de fevereiro de 1960. Encontrado no livro ‘Correio Feminino’ de Clarice Lispector.*

nov 14

Uma gota atrás de cada orelha. Outra gota em cada pulso. Uma ou outra na nuca. Se quiser, outras duas no interior do cotovelo – e com esse estranho ”interior do cotovelo” quero dizer nas dobras dos antebraços. Uma gotinha na têmporas. E assim, a cada movimento seu também o perfume se movimenta.

De um modo geral é preferível um perfume mais seco do que doce. A menos que tipo exija, pela sua doçura de índole e de intenções, uma essência realmente doce.

Na verdade perfume é mesmo questão de gosto, e você está livre para escolher o que lhe agrada.

Mas não é só questão de gosto, é de ocasião também. Você nunca deve usar um perfume mais pesado, à base de almíscar, para fazer esporte, por exemplo, ou para um passeio ao ar livre. A languidez que tais perfumes comunicam tiraria o ânimo dos outros esportistas, ou dos que se propuseram a uma caminhada de quilômetros.

*Publicado originalmente no Diário da Noite, por Ilka Soares, na Seção Aulinhas de Sedução, Cursinho sobre perfume V, no dia 15 de junho de 1960. Encontrado no livro ‘Correio Feminino’, de Clarisse Lispector*

out 30

O homem sempre acha que a sua opinião é a melhor e que portanto deve prevalecer, custe o que custar. A teimosia masculina neste particular é um fato já comprovado. Prova isto o conselho de um dignatário chinês, que sugere aos homens nunca aceitarem os conselhos das esposas, mesmo quando  estas estiverem com a razão. Tanto pior para eles!

Se a mulher aconselha o marido a não comer tanto daquele molho, provavelmente ele comerá mais ainda e terá uma indigestão duas vezes pior, só para provar que a cara-metade não sabe o que diz.

Um caso típico dessa ”Alergia” masculina foi o que há pouco tempo aconteceu num tribunal: a esposa se queixava do marido surdo, porque todas as vezes que começava a falar qualquer coisa para o bem dele, na mesma hora o cabeçudo desligava o aparelho auxiliar da audição.

Pois se até o Rei do Sião não pode compreender como uma mulher pode estar com a razão e o rei errado?

No entanto, quantos maridos poderiam evitar situações embaraçosas e desagradáveis se ouvissem mais os conselhos das esposas?

Conselho é aquilo que não aceitamos porque desejamos experiência; e experiência é o que nos resta, depois que perdemos tudo o mais.

*Publicado Originalmente no Correio da Manhã, por Ilka Soares, no dia 04 de março de 1960. Encontrado no Livro Correio Feminino de Clarice Lispector.*

out 17

Que lindas são as coisas antigas que se tornaram opacas e amarelecidas porque sobre elas passou a vida, porque crescemos e vivemos tocando-as, fixando na retina as suas formas, fazendo-as participar dos nossos segredos, da primeira carta de amor, do primeiro beijo, dos sonhos de felicidade. Foram sonhos que nos fizeram cerrar os olhos para abri-los depois em frente à velha cômoda, à mesa antiquada ou à poltrona desbotada que, durante várias décadas, nos farão recordar a esperança perdida ou realizada, a alegria e o sofrimento nascidos junto àqueles velhos móveis e objetos.

Nada há, por mais belo, elegante ou moderno, que nos dê esta sensação de mútua e muda compreensão, de solidariedade mesmo, que os móveis e objetos antigos sabem nos transmitir.

Que tremenda traição cometemos quando substituímos alguma coisa por outra nova e luzidia, que levará ainda vários anos até adquirir a alma que lhe transmitiremos!

*Publicado originalmente no Correio da Manhã, por Ilka Soares, no dia 19 de outubro de 1960. Encontrado no livro Correio Feminino de Clarice Lispector.*

out 3

Por mais sofisticada, uma mocinha é uma mocinha – e deve se tratar como tal. A beleza e a graça estão ao seu alcance. Em geral, porém, elas não sabem que programa de beleza adotar. E as mães ficam tontas.

Aqui vai um programinha de beleza. Adotado na idade certa, constitui a base de um hábito para a vida toda – não importa que o hábito vá se enriquecendo e se transformando, o principal é implantar o hábito. Este programinha não serve apenas como solução para o presente – protege a beleza nos anos que se seguem.

-Usar água e sabão com abundância. Manter a pele bem limpa e límpida, sempre com aspecto macio. Quando lavar o rosto, enxaguá-lo muitas e muitas vezes com água pura. Nenhum traço de sabão deve ficar.

- Dormir bastante todas as noites. Um mínimo de oito horas. Isso prepara os nervos sadios para a beleza de agora, e para o futuro.

- Fazer exercícios diariamente ao ar livre. Habituar-se a respirar profundamente de vez em quando. Andar a pé.

- Alimentar-se em horas certas. Refeições bem equilibradas.

- Escovar os cabelos diariamente. Manter-lhes o único brilho verdadeiro: o da limpeza.

- Usar cosméticos – mais para menos, do que para mais. Batom – claro. Pó – mas não um ”empoamento” que tira o brilho da pele. Rímel para os cílios – o bastante para lhes dar cor e forma, sem nunca empostá-los. Perfume – a quantidade que dê à mocinha uma aura de aroma; nunca um perfume de tipo pesado.

*Publicado originalmente no Diário da Noite (Seção nossa conversa), por Ilka Soares, no dia 28 de junho de 1960. Encontrado no Livro Correio Feminino de Clarice Lispector.*

set 19

Se você trabalha fora, comanda ou dirige equipes, trata de assuntos comerciais com homens, interessa-se, por força da profissão, pela cotação do mercado, pela contabilidade mecanizada, enfim, se você é obrigada a deixar de lado as maneiras delicadas e muito femininas, muito cuidado! O grande perigo que a ameaça é a masculinização de seus gestos, de sua palestra, de seus pensamentos. É muito freqüente ocorrer isso. Mulheres que, em essência e nas formas, são bastante femininas e, no entanto, deixam-se influenciar pela linguagem e pelos assuntos áridos do mundo dos negócios. Sentem que os homens, à sua volta, aos poucos vão perdendo o interesse inicial e retraindo-se a uma reserva fria, e elas não sabem porquê. Recebem muitos convites para jantar, ainda, mas os galanteios começam a rarear. Conversa de ”homem para homem” é o que parece que os seus antigos admiradores passam a desejar. Por quê? Olham-se ao espelho, não encontram falhas na beleza ou na elegância, e continuam a não compreender. Pois, minhas amigas, o que acontece é que elas esqueceram a sua condição de mulher. Se observarem a si próprias nos seus gestos, no seu tom de voz, se ouvirem suas próprias palavras, ficarão espantadas. Onde terão ficado antiga coqueteria, a graciosidade que dantes as tornavam centro das atenções masculinas? Quando conversam, já não sorriem, as frases são objetivas, geladas, e nenhuma acolhida cordial aproxima-a do seu interlocutor.


Por favor amigas que vivem no mundo dos negócios! Sejam eficientes, trabalhadoras, objetivas, mas não permitam que isso afete a sua feminilidade. Estudem-se com cuidado, quando notarem mudança no cavalheirismo masculino. É esse o sinal de perigo.

*Publicado originalmente no Correio da Manhã, por Ilka Soares, no dia 25 de março de 1960. Encontrado no Livro Correio Feminino, de Clarice Lispector.*

ago 8

Você naturalmente sabe que chamar a atenção não é de bom-tom e dá sempre uma impressão muito má da mulher. Seja pela roupa escandalosa, pelo penteado exótico, pelo andar, pelos modos, pela risada grosseira, seja, enfim, de que maneira for a mulher que chama atenção sobre a sua pessoa o único troféu que merece é o da vulgaridade. A mulher elegante é discreta. Sua superioridade está nos cuidados na harmonia das cores, no bom gosto dos acessórios. Se ela é também bonita, a beleza por si é um ponto de atração para os olhos, sem precisar ser ostentada.

Os homens, geralmente muito discretos, detestam as mulheres que se destacam demais, onde quer que apareçam. Não apenas pela sua própria maneira de ser, mas também por uma questão de vaidade masculina, já que não lhes é agradável ficar ofuscados ou relegados a um plano inferior.

A mulher inteligente procura, portanto, a discrição como regra básica de toda a sua vida. Discrição no vestir-se, no maquilar-se, nos gestos, na voz a até mesmo nas opiniões.

Seja discreta, e veja como os que a cercam tomarão a iniciativa de colocá-la em um lugar de destaque, desde que você possua qualidades para isso.

*Publicado originalmente no Correio da Manhã, no dia 04 de maio de 1960. Encontrado no livro Correio Feminino, de Clarice Lispector*

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